Iniciativa aborda questões de sustentabilidade a partir do uso da nanotecnologia e procura a integração de mulheres nas áreas de STEM
As mulheres são maioria entre os cientistas do Brasil. Elas representam 57% das pessoas tituladas na pós-graduação e também são a maior parcela entre as estudantes de graduação. Porém, quando falamos das áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM), o panorama muda drasticamente. Nas Engenharias e Ciências Exatas e da Terra, por exemplo, a cada quatro docentes, apenas um é mulher.
Com o intuito de aumentar a participação feminina nesses segmentos, surge o projeto “Empoderando meninas em STEM: Nanotecnologia para a Captura e Conversão de CO₂”. Com participação da Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com instituições de ensino e pesquisa do Rio de Janeiro, a proposta é incluir jovens garotas dentro do contexto da pesquisa acadêmica.
Instituto de Química da Universidade Federal Fluminense
Coordenado pela professora do Departamento de Química Inorgânica da UFF, Célia Machado Ronconi, a iniciativa se propõe a encontrar alternativas ao combate das mudanças climáticas a partir da conversão do dióxido de carbono (CO2) em energia sustentável, por meio do uso da nanotecnologia. “Nosso projeto, de forma geral, utiliza a nanotecnologia para capturar o gás e já convertê-lo em algum produto com valor agregado, diminuindo assim, sua concentração na atmosfera para ajudar no combate ao aquecimento global”, resume a professora.
Meninas na ciência
Iniciado em 2025, o projeto já conquistou a formação de dezenas de alunas em atividades de pesquisa e o desenvolvimento de experimentos em laboratório. Além disso, a iniciativa promove o fortalecimento da integração entre a universidade e três escolas públicas, o Colégio Estadual Pinto Lima e os campi São Gonçalo e Maracanã do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Com uma rede colaborativa voltada à promoção da equidade de gênero na ciência, as jovens ganham oportunidades de formação e atuação em áreas estratégicas para o desenvolvimento sustentável.
O projeto surge a partir de um edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) de apoio à inserção de meninas, majoritariamente negras e de escolas públicas, na ciência. Com a chamada, o grupo da professora Célia Machado Ronconi desenvolveu uma metodologia com o intuito de levar as adolescentes para as áreas de STEM, composta em grande maioria por homens.
“Existe um grande tabu sobre a participação das mulheres nas ciências exatas. Por isso, o objetivo do projeto é exatamente gerar interesse nessas meninas na química, matemática, física e engenharias”, explica a professora.
A professora Célia Machado Ronconi manuseando nitregênio líquido no LQSN-UFF
Como bolsistas de iniciação científica júnior, as alunas atuam por 10 horas semanais no Laboratório de Química Supramolecular e Nanotecnologia (LQSN-UFF), localizado no Instituto de Química da UFF. Em seu dia a dia no espaço, elas adquirem a base teórica e colocam em prática os novos aprendizados a partir de experimentos químicos. “No começo elas ficaram um pouco inseguras em um primeiro contato com o laboratório, então, nós partimos do básico para explicar tudo a elas, desde o cálculo de número de moles até a base de uma reação química. Depois, chega a hora de botar a mão na massa, quando elas aprendem sobre normas de segurança no laboratório, manejar vidrarias, colocar uma reação de maneira adequada, sintetizar os compostos e caracterizá-los para verificar se o produto obtido é o esperado”.
A aluna do terceiro ano do Instituto Federal de São Gonçalo, Alice Siqueira, equilibra o ensino técnico em química com as atividades no laboratório. Para a estudante, o contato com a universidade pode abrir oportunidades transformadoras. “Tem sido muito gratificante poder ter participação em algo eficiente para o planeta, a experiência tem sido incrível e é muito bom ver como as coisas funcionam de perto. Então eu acredito que o impacto seja positivo, pois pode abrir portas no mundo acadêmico. Estar em contato com excelentes profissionais e acadêmicos é uma oportunidade muito especial pra mim”.
A bolsista de pós-doutorado do projeto, Mikaelly Batista, ressalta que um dos aspectos mais importantes do projeto é aproximar as estudantes e suas famílias do ambiente acadêmico. Para isso, a iniciativa realiza atividades como workshops nos quais suas famílias podem prestigiar o trabalho das meninas.
“Acredito que o principal resultado não seja necessariamente fazer com que todas sigam carreira como pesquisadoras, mas mostrar que essa é uma possibilidade real para o futuro. Muitas vezes, especialmente para meninas e jovens mulheres, a atuação nas áreas de STEM nem chega a ser considerada como uma opção profissional. O contato com a universidade e com pesquisadoras em atividade ajuda a mostrar que esse espaço também pertence a elas e que elas podem ocupar esses lugares se assim desejarem”.
Quais desafios climáticos o projeto busca combater?
A queima de combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás natural, resulta na liberação de grandes quantidades de dióxido de carbono (CO₂) para a atmosfera. Esse gás é um dos principais responsáveis pelo efeito estufa, fenômeno natural que retém parte do calor irradiado pela superfície terrestre e mantém a temperatura média do planeta em torno de 15 °C. Entretanto, o aumento contínuo da concentração atmosférica de CO₂ intensifica esse fenômeno, elevando a temperatura média global e contribuindo para o processo de aquecimento global.
Laboratório de química supramolecular e nanotecnologia
Dessa forma, os cientistas têm buscado combater as mudanças climáticas a partir da reutilização do gás na atmosfera. No caso do projeto “Empoderando meninas em STEM: Nanotecnologia para a Captura e Conversão de CO₂”, a nanotecnologia é utilizada para desenvolver materiais porosos e nanopartículas metálicas capazes de capturar e converter dióxido de carbono em energia sustentável.
O principal combustível produzido a base de CO₂ é o metanol. Assim, a ideia é transformar o gás em algo com valor agregado, como o combustível metanol, por exemplo. “O metanol é um dos vários produtos químicos que podem ser utilizados como matéria-prima. Realizando esta conversão, você impede o aumento da concentração de CO₂ na atmosfera, pois passa a existir um ciclo de reutilização do gás”, explica Ronconi.
Na programação da 78ª Reunião Anual da SBPC
Durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que acontecerá em Niterói entre os dias 26 de julho e 1º de agosto, as alunas irão apresentar os resultados alcançados até agora pelo projeto . De acordo com Ronconi, o evento pode colaborar para a expansão das perspectivas de futuro das bolsistas.
“Esse é um dos congressos mais importantes e antigos que a gente tem no Brasil. A oportunidade de participar de um evento dessa magnitude é que ele pode abrir a cabeça das meninas para diversas áreas do conhecimento. Nessa fase, em que elas estão decidindo a carreira que querem seguir, o mais importante é que elas se já se enxerguem em um ambiente universitário, em um ambiente com nomes importantíssimos para a ciência”.
Para Mikaelly Batista, a apresentação no congresso também é uma chance de dar visibilidade ao que é produzido pelas alunas e ao impacto desse trabalho na sociedade, ajudando na formação de jovens estudantes. “Consideramos muito importante que elas tenham a oportunidade de vivenciar eventos científicos como a SBPC. Uma etapa fundamental do método científico é justamente a comunicação dos resultados para a comunidade”.
A ideia é que participar de um evento do porte da SBPC permita que as estudantes apresentem seus trabalhos, conheçam pesquisas de diferentes áreas, interajam com diferentes pesquisadores e entendam melhor como a ciência é construída de maneira colaborativa.
Conheça os envolvidos na iniciativa
Além da UFF, as atividades contam com a participação de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). No total, são 35 bolsistas de Iniciação Científica Júnior (ICJ), 3 bolsistas de Iniciação Científica (IC), 1 bolsista de pós-doutorado (PDJ), 7 bolsistas de apoio técnico (AT-NS) e 1 bolsista de Apoio à Difusão do Conhecimento do CNPq (ADC-1C). As bolsistas do Ensino Médio são alunas do Colégio Estadual Pinto Lima e dos campi São Gonçalo e Maracanã do IFRJ.
A equipe completa de pesquisadores participantes é composta por: Bianca Machado (UFF), Fabio Barboza Passos (UFF), Giovanna Machado (CETENE), Felícia Silva Picanço (UFRJ), Marcela Cristina de Moraes (UFF), Sara Silveira Vieira Bertoli (UFF), Sonia Regina Alves Nogueira de Sá (UFF), Carolina Bastos Pereira Ligiero (CBPF), Ludmila de Paula Cabral Silva (UFF), Tiago Giannerini da Costa (IFRJ – São Gonçalo), Aline Farias Moreira da Silva (IFF – Itaboraí), Otávio Versiane Cabral (IFRJ – Rio de Janeiro), Thiago Custódio dos Santos (UFRJ), Maurício Alves de Melo Júnior (UFF) e Camilla Djenne Buarque Müller (PUC-Rio).
Vai participar da 78ª Reunião Anual da SBPC e precisa de um local seguro e acolhedor para sua criança durante as atividades do evento? O Espaço de Cuidados e Apoio às Crianças na SBPC foi criado para oferecer esse suporte às famílias.
De 27 a 31 de julho, crianças de 3 a 11 anos poderão ser acolhidas no espaço, que funcionará na unidade de Educação Infantil do Colégio Universitário Geraldo Reis (Coluni-UFF), ao lado do campus do Gragoatá, em Niterói. A iniciativa busca proporcionar tranquilidade para que mães, pais e responsáveis possam desempenhar suas atividades na programação oficial da SBPC.
Podem solicitar uma vaga pessoas que estejam inscritas na 78ª Reunião Anual da SBPC, atuem oficialmente na organização, programação ou realização do evento e sejam responsáveis legais por crianças na faixa etária atendida.
Serão disponibilizadas 40 vagas por turno, nos seguintes horários:
Manhã: das 9h40 às 12h;
Tarde: das 12h40 às 19h.
O Espaço de Cuidados e Apoio às Crianças na SBPC integra o projeto Cuidotecas – uma iniciativa desenvolvida pela UFF, por meio do Coluni, em parceria com a Secretaria Nacional de Cuidados e Família do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS).
O preenchimento do formulário corresponde a uma solicitação de vaga e está sujeito à disponibilidade e aos critérios de seleção definidos pela organização.
Pesquisadora Bruna Pinto Martins Brito fala da maternidade como fator de diferenciação na trajetória de cientistas brasileiras
A maternidade no ambiente acadêmico será uma das temáticas abordadas na programação científica da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), sediada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), entre 26 de julho e 1º de agosto. O conceito ganha destaque no maior evento científico da América Latina com a mesa-redonda “Maternidade como marcador social da diferença na trajetória profissional das cientistas brasileiras”, coordenada pela professora e pesquisadora do Departamento de Psicologia da UFF em Campos dos Goytacazes, Bruna Martins Brito.
A mesa compõe as atividades propostas pela comissão de Gênero, Diversidade e Equidade e contará com a participação das pesquisadoras Fernanda Staniscuaski, Tatiane dos Santos Duarte, Alana Karoline Fontenelle Valente e Lilian Angélica da Silva Souza. O encontro irá discutir a maternidade enquanto processo de diferenciação na carreira de cientistas homens e mulheres por meio de questões como: sobrecarga mental em mulheres; invisibilidade do trabalho reprodutivo e de cuidado; patriarcado; e lógica produtivista na academia.
Pesquisadora da temática de gênero e saúde mental, Brito ingressou em 2020 no Grupo de Trabalho Mulheres na Ciência, que desde 2022 tornou-se a Comissão Permanente de Equidade de Gênero (CPEG) da UFF. A docente também coordena a ação extensionista “Mães na Rede: Atenção, Cuidado e Redes de Apoio a mães em sofrimento”, projeto que oferece rodas de conversa em espaços públicos na cidade de Campos dos Goytacazes (RJ). Nesta edição , a docente fala sobre a importância de a universidade e as demais instituições oferecerem condições para o ingresso e permanência das mães na produção científica.
Por que é importante compreender a maternidade como uma questão política e estrutural na universidade?
Bruna: Pensando que a universidade não está descolada do social, e que a maternidade extrapola a esfera particular e ocupa o espaço público, conseguimos compreender que ela reproduz tudo aquilo que está num cenário social mais amplo, marcado pelo produtivismo do sistema capitalista e pela invisibilidade do trabalho reprodutivo e de cuidado. Trabalho esse que não é remunerado. Dessa forma, pensar politicamente a maternidade dentro do ambiente acadêmico é, também, avançar em direção a uma mudança cultural, permitindo que a maternidade seja vista enquanto um trabalho, não pela ótica do produtivismo, mas como uma função que garante a manutenção da vida e que, inclusive, sustenta o trabalho produtivo.
De que maneira o sistema capitalista e patriarcal impacta na trajetória das mães pesquisadoras?
Bruna: Em um sistema sustentado pela exploração da força de trabalho aliado à socialização feminina que, até hoje, impõe a maternidade, a carreira das mulheres na ciência é diretamente influenciada pela lógica produtivista e pela invisibilização do trabalho de cuidado. Como esperar que mães cientistas, especialmente com filhos pequenos ou com deficiência, tenham as mesmas condições de produzir, com a excelência que se espera de uma pesquisadora, ao mesmo tempo que se dedicam ao trabalho materno? A sobrecarga mental enfrentada pelas mães, principais cuidadoras das crianças, é muito maior do que a de um pai. A conta não fecha. O que vemos, muitas vezes, são mulheres que trabalham como se não tivessem filhos, sem nem tirar licença pós-maternidade, abrindo mão desse direito, com medo de sofrerem alguma retaliação em uma tentativa desigual de competir com pesquisadores. Um homem não tem que recuperar nada após a paternidade, da mesma forma que ele não pesquisa mais que uma mulher, ele apenas tem mais condição de pesquisar.
Como a invisibilidade do trabalho de cuidado e do trabalho de reprodução afeta a saúde mental das mulheres, especialmente, das mães cientistas?
Bruna: A cultura patriarcal ainda associa ao sexo feminino uma “disposição natural” para o cuidado, enquanto a divisão social do trabalho faz com que as mulheres acumulem as responsabilidades domésticas e profissionais, intensificando seu esgotamento físico e emocional. Na pandemia, isso ficou muito evidente, e tiveram muitos casos de mulheres extremamente sobrecarregadas. Também precisamos pensar o quanto a saúde do seu filho também afeta a sua saúde mental. Em casos de doenças, é a mãe que desmarca os compromissos, sejam profissionais ou pessoais. E, pensando nas mães cientistas, a invisibilidade do trabalho de cuidado passa a comprometer sua própria saúde mental na medida em que as instituições não entendem que aquela mulher não está nas mesmas condições de mulheres sem filhos ou homens. Nesses casos, a solução é retirar sua carga horária de pesquisa e extensão, interrompendo seu viés de pesquisadora. Ou seja, para as mulheres, a tripla jornada é acompanhada pelo desgaste psíquico e comprometimento do seu trabalho.
Atividades do grupo “Mães na Rede” na Semana de Ciência e Tecnologia de Campos dos Goytacazes em 2023 (Jardim São Benedito/ Campos dos Goytacazes)
Qual é a sua percepção sobre os editais de fomento à pesquisa destinados a mães cientistas?
Bruna: Apesar da importância de editais específicos para garantir a permanência de pesquisadoras que são mães no ambiente acadêmico, é preciso que haja recortes que considerem o momento profissional que cada uma delas está, principalmente quando pensamos em crianças pequenas, que têm uma exigência maior de trabalho. Ainda faltam incentivos reais que deem conta da pluralidade do que é ser uma mãe pesquisadora. Mas não dá para começar de cima. É preciso entender as próprias desigualdades entre as mães pesquisadoras. Na UFF, uma das conquistas da CPEG foi a atribuição de uma pontuação extra para as mães nos editais. Então, essa pode ser uma alternativa: incluir ponto extra para as mães com crianças pequenas, a fim de que elas consigam uma pontuação mais equiparável para concorrer às bolsas. Também considero importante implementar essas medidas nos editais de iniciação científica, como forma de incentivar quem está iniciando seu processo de formação.
Como os critérios atuais de avaliação acadêmica podem acabar aprofundando desigualdades entre homens e mulheres na ciência?
Bruna: Quando se iniciou a discussão da maternidade enquanto trabalho, o debate ficava muito nos termos sociológicos e pouco dentro da universidade, especialmente em como o tema afetava as mulheres dessas instituições. Atualmente, entendemos que há uma iniquidade de gênero. Principalmente quando pensamos na maternidade como marcador social da diferença, materializado pelo efeito tesoura de gênero. No caso das mulheres, é muito comum que elas passem por um período de estacionamento da carreira durante os primeiros anos dos filhos. Ao mesmo tempo, mesmo os homens pais de crianças muito pequenas continuam produzindo como se não tivessem filhos. Dados de 2022 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) mostraram que dos 20,9 mil bolsistas, 65% eram homens e 35% mulheres. Já no nível 1A, o mais alto, a discrepância de gênero é ainda maior, e 73% era representado por pessoas do sexo masculino, enquanto apenas 27% eram mulheres. Eu acho que os dados falam por si só. Por que será que tem poucas mulheres no nível A1? Os dados que revelam a desigualdade de gênero em bolsas de pesquisa não mostram a relação entre pesquisadores que exercem a maternidade e paternidade, fatores que considero essenciais para escancarar a desigualdade do trabalho de cuidado.
Bruna e a bolsista Aguitha Vasconcelos na apresentação do projeto no “Mães na Rede” no Congresso Fluminense de Iniciação Científica e Tecnológica (CONFICT) em 2024
Como driblar a lógica produtivista dentro da academia?
Bruna: Apesar de considerar a produção importante, acredito que é preciso problematizar a lógica produtivista adotada pelas universidades, muitas vezes alinhada às exigências do capital e da manutenção de status acadêmico. Também acho fundamental discutir como parte da produção de pesquisadores homens é sustentada pelo trabalho invisibilizado de mulheres, tanto no cuidado com os filhos quanto no suporte acadêmico realizado por bolsistas de iniciação científica e pós-graduandas. Além disso, acho que as instituições deveriam valorizar mais outras formas de circulação do conhecimento para além das publicações científicas, como as ações extensionistas, que ampliam o diálogo entre universidade e sociedade e dialogam com diferentes formas de saber. A produção científica é fundamental, mas ela não pode acontecer às custas do adoecimento de quem pesquisa.
Como você avalia a inserção dessas temáticas na programação da SBPC?
Bruna: Vejo com muita alegria a inclusão dessas discussões na programação da SBPC. Há alguns anos, seria impensável debater gênero e maternidade dentro de um evento científico desse porte. Considero que esse encontro será um passo importante para refletirmos sobre a realidade das pesquisadoras no Brasil, embora ainda seja insuficiente diante do que precisamos avançar. Espero que as pautas que serão discutidas resultem em mudanças concretas, como alterações nos editais, revisão da lógica produtivista, combate ao assédio nas universidades e no fortalecimento dos coletivos de mães. Também acredito que a ampliação do espaço para pesquisadoras mães fortalece e diversifica a produção científica. Vi essa mudança na prática desde que iniciei meu projeto de extensão sobre maternidade, em 2020. Em cinco anos, já orientamos mais de 20 trabalhos de conclusão de curso sobre o tema, mostrando o impacto direto dessa abertura.
Qual é a sua expectativa para a mesa-redonda?
Bruna: Espero que este espaço seja um local seguro para que as mulheres possam discutir e expressar, livremente, os desafios enfrentados pelas mães pesquisadoras, desde as discentes até as docentes, e que possamos transformar essa discussão em propostas concretas de mudanças estruturais nas universidades, como melhores condições de permanência e mais ações de apoio às mães na pesquisa. Além disso, desejo que o debate incentive a comunidade científica a tratar esse tema como uma questão coletiva, e não individual, e que essa discussão ganhe espaço dentro da SBPC como um tema central para a ciência brasileira, com mais respeito, visibilidade e compromisso com a redução das desigualdades de gênero.
Aberta ao público e com participação gratuita, a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência acontece no Campus Gragoatá da UFF, em São Domingos. A programação contará com conferências, mesas-redondas, minicursos, exposições, atividades culturais e palestras voltadas tanto para estudantes do ensino básico quanto para discentes e docentes da universidade. As informações sobre o evento podem ser acompanhadas no site oficial da SBPC e no perfil do instagram.
Bruna Pinto Martins Brito é professora associada do curso de Psicologia de Campos dos Goytacazes da UFF. Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2004), mestrado e doutorado em Psicologia pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em tratamento e prevenção psicológica, tratamento analítico, saúde mental e maternidade.
A 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que será realizada na Universidade Federal Fluminense (UFF), entre os dias 26 de julho e 1º de agosto, contará com mais uma edição da SBPC Jovem, espaço dedicado aos estudantes da educação básica. A iniciativa tem como objetivo aproximar crianças e jovens do conhecimento científico e dos pesquisadores, estimulando o interesse pela ciência, tecnologia e inovação. Para esta edição, a SBPC Jovem já tem sua mascote oficial: Nicky. Escolhida com 46,4% dos votos em concurso aberto ao público, a personagem foi criada para representar os valores da ciência, da inclusão, da diversidade e da inovação que norteiam as atividades do programa.
Nicky, idealizada por Adezilton Cordeiro de Lima, Mestre em Diversidade e Inclusão pela UFF, é retratada como uma jovem pesquisadora de pele parda, cabelos crespos e usuária de aparelho auditivo, reforçando o compromisso com a representatividade e a acessibilidade. Sua identidade visual também estabelece conexão com a cidade-sede da reunião, incorporando referências ao Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói em seu design, além de elementos tecnológicos que remetem ao futuro da pesquisa científica.
O nome Nicky possui dupla referência. Uma delas é pelo termo muito usado em ambiente da Internet como redes sociais e games. O outro significado faz alusão ao próprio apelido da cidade de Niterói, “Nikity City”.
O processo de criação teve como base uma concepção autoral centrada na valorização da pluralidade do ambiente universitário e da produção científica brasileira. A proposta buscou destacar o protagonismo feminino na ciência, a inclusão social e a integração entre conhecimento, tecnologia e identidade regional.
Além de receber certificado de reconhecimento, o autor da proposta vencedora terá sua criação utilizada nas ações institucionais e nos materiais de divulgação da 78ª Reunião Anual da SBPC ao longo de 2026. A mascote também participará de atividades voltadas ao público de diferentes faixas etárias, contribuindo para aproximar a sociedade da ciência de forma lúdica e acessível.
Realizada pela primeira vez na UFF, a 78ª Reunião Anual da SBPC reunirá pesquisadores, estudantes, professores e representantes da sociedade civil para debater temas estratégicos para o desenvolvimento científico, tecnológico e social do país.
Resultado final do concurso: Nicky – 46,4% Ibí – 31,6% Arari – 22%
Jornalistas, assessores de comunicação, divulgadores científicos e influenciadores digitais já podem solicitar credenciamento para cobrir o maior evento científico da América Latina. Participantes credenciados terão acesso a crachá de imprensa, kit de apoio, sala exclusiva para jornalistas e cobertura completa das atividades da programação
Os profissionais interessados em acompanhar a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) já podem solicitar seu credenciamento. A cerimônia de abertura será realizada em 26 de julho, e a programação seguirá até 1º de agosto, no campus Gragoatá da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ).
O credenciamento é destinado a jornalistas, assessores de comunicação de instituições públicas e privadas, divulgadores científicos, produtores de conteúdo e influenciadores digitais interessados na cobertura do evento. Os profissionais credenciados receberão crachá de imprensa, kit de apoio e terão acesso a uma sala exclusiva para atendimento à imprensa, equipada para apoiar entrevistas, produção de conteúdo e envio de materiais.
Além disso, o credenciamento garante acesso a toda a programação da Reunião Anual, incluindo conferências, mesas-redondas, sessões especiais, atividades culturais, exposições e espaços interativos. A estrutura de imprensa estará localizada em área estratégica, próxima aos principais auditórios e tendas de atividades.
Com o tema “Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão”, a 78ª Reunião Anual da SBPC reunirá pesquisadores, estudantes, gestores públicos, representantes de movimentos sociais, instituições científicas e o público em geral para discutir alguns dos principais desafios estratégicos do Brasil e o papel da ciência na construção de soluções para o país.
Reconhecida como o maior evento científico da América Latina, a Reunião Anual da SBPC é gratuita e aberta ao público. Todos os anos, atrai milhares de participantes, entre cientistas, professores, estudantes de todos os níveis de ensino, profissionais de diversas áreas, gestores públicos e formuladores de políticas de ciência, tecnologia e inovação.
A programação contempla iniciativas como a SBPC Inovação, a SBPC Afro e Indígena e a SBPC Educação. Também inclui exposições e atividades interativas, como a SBPC Jovem e a ExpoT&C, que apresentam atrações desenvolvidas por instituições de todo o país para públicos de diferentes idades e interesses.
A programação científica reunirá ainda ministros de Estado, dirigentes das principais agências de fomento à pesquisa e cientistas de destaque nacional e internacional, em debates sobre temas estratégicos para o desenvolvimento do Brasil.
Mais informações sobre a programação e inscrições estão disponíveis no site da 78ª Reunião Anual da SBPC: https://ra.sbpcnet.org.br/78RA/.
A pedagoga Natália Barbosa reflete sobre a necessidade de “aquilombar” as escolas e o compromisso coletivo com a construção de um ensino plural
A mesa-redonda “Aquilombar a escola — o que a educação quilombola pode ensinar à educação regular” é um dos destaques da programação da comissão Afro, Indígenas e Comunidades Tradicionais da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). A atividade debate como práticas de oralidade, coletividade e valorização da ancestralidade presentes nas comunidades quilombolas podem contribuir para uma educação mais inclusiva e antirracista. A SBPC acontece entre os dias 26 de julho e 1º de agosto, no Campus Gragoatá da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói.
Com o tema “Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão”, o maior encontro científico da América Latina deve reunir cerca de 50 mil participantes para discutir políticas públicas nas áreas de Educação, Ciência e Tecnologia. Como forma de ampliar o debate sobre os modelos educacionais, o evento abriu espaço para a reflexão sobre como experiências da educação quilombola podem inspirar práticas pedagógicas mais diversas e representativas na educação básica.
Participa desta edição do Vozes SBPC a pedagoga Natália Barbosa da Silva, professora e diretora do Colégio Universitário Geraldo Reis (Coluni/UFF). Com pesquisas voltadas à educação antirracista, ela explica nesta entrevista como o conceito de “aquilombar” a escola pode contribuir para uma formação mais plural e representativa, além dos desafios para a implementação da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira, além de colocar o Dia da Consciência Negra como data prevista no calendário escolar.
Quando se fala em educação quilombola, muitas pessoas ainda conhecem pouco essa realidade. Quais características dessa experiência educacional você considera fundamentais para compreender os desafios da educação brasileira hoje?
Natália Barbosa: Os principais aspectos que a educação quilombola traz são os valores das comunidades tradicionais: a questão da oralidade, do respeito à memória e à ancestralidade. Temos a educação quilombola como uma modalidade e há um grande erro dentro da educação básica que acaba separando-a. Em algumas escolas não se aborda o tema , sendo que os saberes que os quilombos trazem são muito importantes quando pensamos em educação para as relações étnico-raciais. Dentro desses conhecimentos estão a diversidade cultural e a memória ancestral, os quais são fundamentais para preservar saberes que muitas vezes são apagados nos contextos urbanos, mas permanecem vivos na educação quilombola por meio da valorização dos mais velhos. Saber viver em comunidade e aprender esses aspectos é fundamental, pois fazem parte da nossa história, embora ainda vejamos poucos trabalhos sobre a modalidade na educação básica como um todo.
Professora Natália Barbosa
Ao longo da sua trajetória, você pesquisou temas como educação antirracista, formação de professores e a implementação da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nas escolas. Como essas experiências ajudam a compreender o papel da educação quilombola na construção de uma escola mais plural e representativa?
Natália: Minha trajetória acadêmica toda é pensada na discussão das relações étnico-raciais e no ensino de história e cultura africana e afro-brasileira na educação básica, com um recorte nos anos iniciais e na formação de professores. Quando estudamos e pensamos na educação quilombola, vemos não só a importância dessa inserção, mas a necessidade de falar e afirmar esse espaço, até porque o reconhecimento da modalidade não é simplesmente dado, mas feito a partir de muita luta. Precisamos, por meio da educação,introduzir as referências, assim como demonstrar a importância e a relevância desse modelo de ensino. Fala-se pouco sobre quilombos nas escolas, nas universidades e menos ainda nas licenciaturas. Eu mesma fiz pedagogia e, ao longo da minha formação, não estudei quantos quilombos existem no Rio de Janeiro. No geral, nós desconhecemos essa realidade. O desconhecimento faz parte da ausência de uma discussão que precisa estar presente tanto na universidade como na educação básica. Mesmo com a criação da Lei 10.639/2003, ainda há muito trabalho a ser feito quando pensamos na educação quilombola, seja no ensino superior ou na educação básica.
A educação quilombola costuma ser associada apenas às comunidades onde ela acontece. Na prática, quais aprendizados desse modelo podem contribuir para melhorar a experiência educacional de estudantes em diferentes contextos do país?
Natália: Acaba que a ideia de educação quilombola fica restrita às comunidades tradicionais, como se devêssemos discutir o tema apenas onde há uma escola quilombola. Mas não é disso que falamos quando usamos o termo “aquilombar”; o conceito não diz que queremos discutir apenas com as escolas quilombolas. Elas já estão vivenciando o que as outras unidades de ensino precisam discutir. A diversidade cultural e a memória ancestral são fundamentais, pois temos dificuldade em entender a memória do nosso povo. Na educação quilombola, a memória dos mais velhos é referenciada na prática, algo que muitas vezes perdemos no meio urbano, onde a memória local e cultural é apagada. Outras questões essenciais são a oralidade e o viver em comunidade, o senso de circularidade [é a capacidade de compreender e aplicar a lógica de que nada se perde, tudo se transforma], de aprender com o outro e com o mais velho, priorizando a troca em vez da disputa. Acredito que cresceríamos muito mais como sociedade se nos “aquilombássemos”.
Sua pesquisa tem uma forte ligação com a formação de professores. Qual é o papel dos educadores na construção de uma escola capaz de reconhecer diferentes identidades, histórias e formas de produção de conhecimento?
Natália: Aprendi com os mais velhos e com pessoas que estudam relações raciais que só existe democracia se a sociedade for antirracista. Isso traz toda a discussão sobre as questões raciais para dentro da escola. Se um professor quer ser de fato comprometido com uma educação democrática, para a diversidade e para a diferença, ele precisa compreender os diferentes saberes e as diferentes contribuições para essa educação acontecer. Não tem como pensar em modelo educacional para a diversidade sem olhar para as questões raciais que atravessam essa discussão, especialmente quando falamos sobre a formação do povo brasileiro.
Mais de vinte anos após a criação da Lei 10.639/2003, quais transformações você considera mais significativas e quais lacunas ainda precisam ser enfrentadas?
Natália: Tivemos avanços e alguns retrocessos voltados às políticas governamentais. A Lei 10.639 foi uma conquista do movimento negro e gerou políticas de ação afirmativa importantes, como as diretrizes curriculares de 2004, a criação da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (SECADI), da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), a Lei de Cotas e o Estatuto da Igualdade Racial. Após 20 anos, o maior gargalo está na gestão escolar. Muitas vezes os professores têm práticas maravilhosas, mas a gestão não as institucionaliza, o que impede a continuidade do trabalho. Outra lacuna está nas licenciaturas; a discussão de Educação e Relações Étnico-Raciais (ERER) ainda aparece de forma opcional ou ausente em muitos currículos. Esse debate precisa avançar em todas as áreas, não apenas em história ou artes, mas também na matemática, física e biologia, pois todos esses professores estarão nas escolas. A discussão racial não pode ser responsabilidade apenas de uma disciplina ou dos professores negros. Então, eu acho que na universidade o debate precisa avançar ainda mais nos próximos anos.
Questões como diversidade, pertencimento e combate ao racismo têm impacto direto na formação das novas gerações. Qual a importância de eventos como a SBPC criarem espaços de diálogo entre pesquisadores, educadores e a sociedade para discutir esses temas?
Natália: Acho fundamental. Sendo a SBPC o maior encontro de ciências do Brasil, é essencial que todos os pesquisadores pensem sobre esses aspectos. Eu, enquanto mulher negra e pedagoga, não quero essa discussão apenas para mim, mas para todo mundo. É fundamental que a ciência brasileira seja antirracista e se coloque nesse compromisso. Embora a legislação foque na educação básica, a responsabilidade é coletiva, pois a ciência está em toda parte e deve se afirmar como um lugar de compromisso com as relações raciais.
Para quem pretende acompanhar a mesa na SBPC, qual é a principal reflexão que você espera provocar sobre a educação quilombola e os caminhos para uma educação mais inclusiva no Brasil?
Natália: A principal reflexão é de que essa discussão não é só da educação, é para todo mundo. Precisamos nos “aquilombar” e valorizar nossa ancestralidade, a diversidade e a diferença. Mas, antes de valorizar, precisamos conhecer. Por isso, convido a todos para que possam conhecer e discutir, entendendo que construir esse caminho é uma tarefa de todos nós.
A Reunião Anual da SBPC é aberta ao público, com acesso livre e gratuito às atividades. Primeira edição a ocorrer em Niterói, o evento contará com conferências, mesas-redondas, sessões de pôsteres, atividades culturais, exposições, minicursos e outras programações. Acompanhe as informações sobre o evento no site oficial e no instagram.
Natália Barbosa da Silva é professora do Quadro Permanente da Universidade Federal Fluminense, lotada no Colégio Universitário Geraldo Reis (COLUNI/UFF) e Diretora da Unidade de Ensino. Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2017), Especialização no Programa de Residência Docente do Colégio Pedro II (2018) e Mestrado em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2020). Tem experiência na área de Educação, com ênfase em formação de professores, alfabetização, educação antirracista e história e cultura africana e afro-brasileira.