Vozes da SBPC: Crise ambiental, habitacional e as desigualdades sociais contemporâneas

Vozes da SBPC: Crise ambiental, habitacional e as desigualdades sociais contemporâneas

Mesa-redonda do evento recebe a pesquisadora Lourdes Brazil para refletir sobre os impactos ambientais no cotidiano da população brasileira

A crise climática e habitacional é um fenômeno contemporâneo que atinge desde pequenos municípios à grandes metrópoles. Desmatamento de vegetação nativa, construções em áreas inseguras e o aquecimento global são alguns dos fatores que, não apenas ampliam o problema, como também evidenciam a maneira que as desigualdades sociais ditam as condições de existência e sobrevivência nas cidades hoje.

Esse será um dos temas discutidos na programação da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), sediada na Universidade Federal Fluminense (UFF) em julho deste ano. A conversa “Crise habitacional e ambiental: políticas públicas urbanas e direito à moradia” será mediada pela coordenadora Lourdes Brazil, com participação das pesquisadoras Denise de Alcantara Pereira, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e Diana Helene Ramos, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Além de pesquisadora, Lourdes também é professora associada do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Biotecnologia da UFF. Com parcerias internacionais e experiência nas áreas de ecologia social, desenvolvimento urbano  e educação para sustentabilidade, a pesquisadora busca relacionar esses temas com a melhoria da qualidade de vida e luta pela equidade social de raça, classe e gênero.

A mesa-redonda da qual você vai participar na 78ª Reunião Anual da SBPC discute sobre a crise habitacional e ambiental. O que caracteriza essa crise? Por que ela se tornou um dos principais desafios das cidades nos últimos anos?

Lourdes: A SBPC é uma reunião que discute questões pertinentes à democracia, une pesquisadores e, principalmente, que populariza a ciência. O tema do evento deste ano, com foco em soberania, desenvolvimento e inclusão, tem tudo a ver com a crise ambiental. O problema habitacional diz respeito ao déficit absoluto de moradias. Segundo pesquisas recentes, faltam cerca de 6 milhões de casas no Brasil para atender a população, com índice maior no Sudeste. Além de haver mais residências precárias em relação à qualidade do material, espaçamento e localização. A crise faz com que cada vez mais pessoas ocupem ecossistemas frágeis, que ficam em lugares sujeitos aos impactos das emergências climáticas, como as encostas dos morros, beiras de estradas ou áreas de manguezais. O déficit habitacional em crescimento, junto à crise climática, é uma questão preocupante, principalmente para as residências precarizadas, que sofrem maiores impactos com chuvas torrenciais ou altas temperaturas. Não é possível pensar em desenvolvimento se as pessoas não têm um local adequado para viver.

As consequências da crise climática e habitacional são piores para as populações marginalizadas e desprivilegiadas.
Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

Muitas pessoas ainda associam os impactos das mudanças climáticas apenas às populações mais vulneráveis. Porém, pesquisas como a do Aurora Lab e More in Common mostram que 85% dos brasileiros já notam esses efeitos no cotidiano. Como esses fenômenos afetam diferentes grupos sociais e o funcionamento das cidades?

Lourdes: As tempestades afetam a todos, desde encher as casas, afetar a locomoção ou arrasar plantações de agricultura familiar. A estatística da Organização das Nações Unidas (ONU) Mulheres e Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) indica que, até 2050, cerca de 158 milhões de mulheres entrarão em condições abaixo da linha da pobreza devido aos eventos climáticos extremos. Em uma visita à comunidade Vital Brasil, em Niterói, junto a uma orientanda, conversamos com várias mulheres, em que a maioria eram chefes de família, e elas diziam que não tinham mais dinheiro para investir, apenas para consertar, com obras que não duravam muito tempo, a casa afetada pela chuva. As alterações climáticas afetam os países do norte, do sul e, no Brasil, afetam várias regiões. Dentro dessas áreas, tem um grupo que é muito mais afetado. Nós falamos sempre que as mulheres estão sofrendo os impactos climáticos, mas não queremos só apresentar esses dados, mas trazê-las para o debate, para que elas possam também ser construtoras de soluções.

O que explica as mulheres serem mais atingidas pelas crises habitacionais e climáticas?

Lourdes: As opressões históricas de gênero e classe fazem com que as mulheres tenham uma série de desvantagens e desigualdades. Elas estão nos extratos mais baixos da nossa sociedade, na base da pirâmide, principalmente as mulheres negras, mestiças e indígenas. E, agora, estudamos a chamada opressão territorial: mulheres que são chefes de família, com vários filhos, que vivem com rendas baixas e passam por um quadro de precariedade em um local inadequado.

Como os governos e instituições podem agir para mudar as circunstâncias atuais que afetam o direito à moradia garantido por lei? 

Lourdes: Na verdade, faltam políticas públicas mais amplas. Aumentou a oferta de moradia, mas também aumentou o número de moradias precárias. E as pessoas que estão nessas residências são aquelas que não são contempladas pelas políticas públicas pelo nível de renda, e, principalmente, por não terem informação. Existe um contingente alto de pessoas que estão à margem das políticas habitacionais de moradia, um conceito amplo que se refere apenas à casa. Moradia tem relação com acesso aos serviços e equipamentos urbanos como escola, saúde, área verde e transporte. É preciso haver um compromisso em nível municipal, estadual e federal para identificar os indivíduos que não têm acesso às políticas públicas e os retirarem de situações precárias, algo anterior ao “Minha Casa, Minha Vida”, por exemplo.

Os trabalhos coordenados no Centro Gênesis mudaram toda a região em que o espaço está localizado, com mais biodiversidade e equilíbrio ambiental. Foto: Arquivo Pessoal

Você criou nos anos 90 o Centro de Educação Ambiental Gênesis, que tem ações sociais voltadas à educação sobre sustentabilidade e preservação da natureza, e já recebeu prêmios e reconhecimentos internacionais da UNESCO e ONU Habitat. Quais são as principais linhas de atuação da instituição hoje?

Lourdes: O Centro Gênesis é uma microempresa que tem como missão educar para a sustentabilidade, com serviços e programas que podem ser implementados em diferentes locais, além de pesquisas. Nosso trabalho mais importante é a recuperação da cobertura vegetal: desde 2002 já plantamos mais de seis mil pés de árvores nativas da Mata Atlântica e, à medida que essas árvores cresceram, também nasceu um bosque com quase 100 pés de pau-brasil. Isso criou uma ilha de frescor no bairro de São Gonçalo, um dos municípios mais quentes da região metropolitana do Rio de Janeiro, além de atrair biodiversidade para o espaço com pássaros, borboletas e mariposas. 

Também temos um projeto chamado “Construindo Caminhos para Sustentabilidade”, que foi um dos vencedores no concurso da ONU Habitat Nacional Petrobras em 2010, e fomos selecionados para a primeira Conferência Mundial de Educação para a Sustentabilidade pela UNESCO por um projeto realizado com crianças de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí. Recebemos visitas de outros países e, dentre muitos projetos e premiações, também temos uma parceria com a Fiocruz, que mostra às mulheres o que são emergências climáticas. Não são sinais do fim dos tempos, mas mudanças provocadas por uma série de transformações políticas, econômicas e sociais. Elas entendem que a situação não é espontânea e a solução não é individual, mas é um problema que precisa ser resolvido através de políticas públicas.

Além de já ter atuado no exterior, você também toca uma disciplina no Programa de Pós Graduação da UFF sobre vulnerabilidade urbana, que reúne estudantes brasileiros e estrangeiros. Qual a importância de alunos internacionais participarem desses debates, sobretudo os alunos da América Latina e África, continentes inferiorizados frente às chamadas potências mundiais?

Lourdes: Fui professora visitante na universidade Colégio Veracruzano, no México,  e trabalhei com um programa de desenvolvimento sustentável. Também tenho um vínculo com alunos da Angola, onde atuei como pesquisadora convidada no Programa de Pós-Graduação da Engenharia Civil, na linha de sustentabilidade. A disciplina internacional na UFF surgiu quando descobrimos todos os impactos positivos do laboratório vivo no Centro Gênesis. A partir disso, começamos a estudar as possibilidades de ter bosques em lugares periféricos no Brasil, no México e em Angola. É muito bom poder dialogar com pesquisadores de outros territórios, como as professoras mexicana e colombiana que também estão à frente da disciplina. Nós sempre estudamos as periferias e trabalhamos com a valorização e empoderamento comunitário. O meu grande sonho é transformar o Centro Gênesis na Universidade da Mata Atlântica, com apoio de instituições internacionais.

Como você disse no princípio, a SBPC aproxima a ciência da sociedade, incentivando discussões e reflexões sobre assuntos importantes. Qual é o papel dos pesquisadores na comunicação de temas como mudanças climáticas, planejamento urbano e sustentabilidade para além da universidade? Por que é importante abordar esses temas em um evento tão grande como a SBPC?

No Brasil, a universidade ainda tem as portas fechadas e a população ainda está longe dela. Nós temos que fazer um esforço deliberado para levar os assuntos acadêmicos até a população. Estamos caminhando e já melhorou bastante, mas ainda não chegamos no ponto que precisa ser para que essas populações, as mais afetadas, saibam o que está acontecendo. Durante a mesa na SBPC vou levar o meu livro “Tudo que ficou para trás, tudo que virá pela frente”, que aborda um pouco o tema da moradia. O livro foi um dos 10 finalistas do concurso de ensaios do Instituto Marielle Franco e nele eu faço uma retrospectiva do deslocamento da população dos centros urbanos para as periferias. O que ficou para trás são as escolas, serviços de saúde, áreas de lazer, cultura e viver em um lugar bem afamado; e tudo que virá pela frente é o movimento que estamos fazendo para conquistar as melhorias e alertar a população.

Para a professora, a SBPC é a oportunidade da ciência chegar à população, sobretudo a porção mais jovem. Foto: Arquivo pessoal

Lourdes Brazil dos Santos Argueta é pesquisadora e professora no Programa de Pós-Graduação em Ciências e Biotecnologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). É doutora e mestre em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em Planejamento Ambiental e Metodologia de Ensino Superior e graduada em Ciências Econômicas pela UFF.

Por Letícia Souza

Inscrições abertas para os minicursos da 78ª Reunião Anual da SBPC

Inscrições abertas para os minicursos da 78ª Reunião Anual da SBPC

Já estão abertas as inscrições para os minicursos da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que será realizada na Universidade Federal Fluminense (UFF), de 26 de julho a 1º de agosto de 2026.

A programação reúne mais de 60 minicursos presenciais e virtuais, abordando temas atuais e estratégicos para a ciência, a educação, a inovação, a sustentabilidade, a saúde, a cultura, a tecnologia e as políticas públicas. As atividades serão ministradas por especialistas de instituições de ensino e pesquisa de todo o país, proporcionando aos participantes oportunidades de aprofundamento teórico, troca de experiências e atualização profissional.

Entre os temas oferecidos estão inteligência artificial na educação, mudanças climáticas, astronomia, divulgação científica, computação na educação básica, ciência cidadã, saúde e meio ambiente, equidade de gênero, metodologias ativas, patrimônio cultural, educação inclusiva, sustentabilidade, políticas públicas, entre muitos outros.

Os minicursos são voltados para diferentes públicos, incluindo estudantes de graduação e pós-graduação, professores da educação básica, pesquisadores, profissionais de diversas áreas e interessados em ciência e tecnologia.

As vagas para os cursos presenciais são limitadas de acordo com a capacidade do local de realização.

Confira aqui as normas de matrícula.

Inscrições e programação completa aqui.

Radar SBPC: Projeto da UFF Busca Empoderar Meninas na Ciência

Radar SBPC: Projeto da UFF Busca Empoderar Meninas na Ciência

Iniciativa aborda questões de sustentabilidade a partir do uso da nanotecnologia e procura a integração de mulheres nas áreas de STEM

As mulheres são maioria entre os cientistas do Brasil. Elas representam 57% das pessoas tituladas na pós-graduação e também são a maior parcela entre as estudantes de graduação. Porém, quando falamos das áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM), o panorama muda drasticamente. Nas Engenharias e Ciências Exatas e da Terra, por exemplo, a cada quatro docentes, apenas um é mulher.

Com o intuito de aumentar a participação feminina nesses segmentos, surge o projeto “Empoderando meninas em STEM: Nanotecnologia para a Captura e Conversão de CO₂”. Com participação da Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com instituições de ensino e pesquisa do Rio de Janeiro, a proposta é incluir jovens garotas dentro do contexto da pesquisa acadêmica. 

Instituto de Química da Universidade Federal Fluminense

Coordenado pela professora do Departamento de Química Inorgânica da UFF, Célia Machado Ronconi, a iniciativa se propõe a encontrar alternativas ao combate das mudanças climáticas a partir da conversão do dióxido de carbono (CO2) em energia sustentável, por meio do uso da nanotecnologia. “Nosso projeto, de forma geral, utiliza a nanotecnologia para capturar o gás e já convertê-lo em algum produto com valor agregado, diminuindo assim, sua concentração na atmosfera para ajudar no combate ao aquecimento global”, resume a professora.

Meninas na ciência

Iniciado em 2025, o projeto já conquistou a formação de dezenas de alunas em atividades de pesquisa e o desenvolvimento de experimentos em laboratório. Além disso, a iniciativa promove o fortalecimento da integração entre a universidade e três escolas públicas, o Colégio Estadual Pinto Lima e os campi São Gonçalo e Maracanã do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Com uma rede colaborativa voltada à promoção da equidade de gênero na ciência, as jovens ganham oportunidades de formação e atuação em áreas estratégicas para o desenvolvimento sustentável.

O projeto surge a partir de um edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) de apoio à inserção de meninas, majoritariamente negras e de escolas públicas, na ciência. Com a chamada, o grupo da professora Célia Machado Ronconi desenvolveu uma metodologia com o intuito de levar as adolescentes para as áreas de STEM, composta em grande maioria por homens.

“Existe um grande tabu sobre a participação das mulheres nas ciências exatas. Por isso, o objetivo do projeto é exatamente gerar interesse nessas meninas na química, matemática, física e engenharias”, explica a professora.

A professora Célia Machado Ronconi manuseando nitregênio líquido no LQSN-UFF

Como bolsistas de iniciação científica júnior, as alunas atuam por 10 horas semanais no Laboratório de Química Supramolecular e Nanotecnologia (LQSN-UFF), localizado no Instituto de Química da UFF. Em seu dia a dia no espaço, elas adquirem a base teórica e colocam em prática os novos aprendizados a partir de experimentos químicos. “No começo elas ficaram um pouco inseguras em um primeiro contato com o laboratório, então, nós partimos do básico para explicar tudo a elas, desde o cálculo de número de moles até a base de uma reação química. Depois, chega a hora de botar a mão na massa, quando elas aprendem sobre normas de segurança no laboratório, manejar  vidrarias, colocar uma reação de maneira adequada, sintetizar os compostos e caracterizá-los para verificar se o produto obtido é o esperado”.

A aluna do terceiro ano do Instituto Federal de São Gonçalo, Alice Siqueira, equilibra o ensino técnico em química com as atividades no laboratório. Para a estudante, o contato com a universidade pode abrir oportunidades transformadoras. “Tem sido muito gratificante poder ter participação em algo eficiente para o planeta, a experiência tem sido incrível e é muito bom ver como as coisas funcionam de perto. Então eu acredito que o impacto seja positivo, pois pode abrir portas no mundo acadêmico. Estar em contato com excelentes profissionais e acadêmicos é uma oportunidade muito especial pra mim”.

A bolsista de pós-doutorado do projeto, Mikaelly Batista, ressalta que um dos aspectos mais importantes do projeto é aproximar as estudantes e suas famílias do ambiente acadêmico. Para isso, a iniciativa realiza atividades como workshops nos quais suas famílias podem prestigiar o trabalho das meninas. 

“Acredito que o principal resultado não seja necessariamente fazer com que todas sigam carreira como pesquisadoras, mas mostrar que essa é uma possibilidade real para o futuro. Muitas vezes, especialmente para meninas e jovens mulheres, a atuação nas áreas de STEM nem chega a ser considerada como uma opção profissional. O contato com a universidade e com pesquisadoras em atividade ajuda a mostrar que esse espaço também pertence a elas e que elas podem ocupar esses lugares se assim desejarem”. 

Quais desafios climáticos o projeto busca combater?

A queima de combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás natural, resulta na liberação de grandes quantidades de dióxido de carbono (CO₂) para a atmosfera. Esse gás é um dos principais responsáveis pelo efeito estufa, fenômeno natural que retém parte do calor irradiado pela superfície terrestre e mantém a temperatura média do planeta em torno de 15 °C. Entretanto, o aumento contínuo da concentração atmosférica de CO₂ intensifica esse fenômeno, elevando a temperatura média global e contribuindo para o processo de aquecimento global. 

Laboratório de química supramolecular e nanotecnologia

Dessa forma, os cientistas têm buscado combater as mudanças climáticas a partir da reutilização do gás na atmosfera. No caso do projeto “Empoderando meninas em STEM: Nanotecnologia para a Captura e Conversão de CO₂”, a nanotecnologia é utilizada para desenvolver materiais porosos e nanopartículas metálicas capazes de capturar e converter dióxido de carbono em energia sustentável. 

O principal combustível produzido a base de CO₂ é o metanol. Assim, a ideia é transformar o gás em algo com valor agregado, como o combustível metanol, por exemplo. “O metanol é um dos vários produtos químicos que podem ser utilizados como matéria-prima. Realizando esta conversão, você impede o aumento da concentração de CO₂ na atmosfera, pois passa a existir um ciclo de reutilização do gás”, explica Ronconi.

Na programação da 78ª Reunião Anual da SBPC

Durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que acontecerá em Niterói entre os dias 26 de julho e 1º de agosto, as alunas irão apresentar os resultados alcançados até agora pelo projeto . De acordo com Ronconi, o evento pode colaborar para a expansão das perspectivas de futuro das bolsistas. 

“Esse é um dos congressos mais importantes e antigos que a gente tem no Brasil. A oportunidade de participar de um evento dessa magnitude é que ele pode abrir a cabeça das meninas para diversas áreas do conhecimento. Nessa fase, em que elas estão decidindo a carreira que querem seguir, o mais importante é que elas se já se enxerguem em um ambiente universitário, em um ambiente com nomes importantíssimos para a ciência”.

Para Mikaelly Batista, a apresentação no congresso também é uma chance de dar visibilidade ao que é produzido pelas alunas e ao impacto desse trabalho na sociedade, ajudando na formação de jovens estudantes. “Consideramos muito importante que elas tenham a oportunidade de vivenciar eventos científicos como a SBPC. Uma etapa fundamental do método científico é justamente a comunicação dos resultados para a comunidade”.

A ideia é que participar de um evento do porte da SBPC permita que as estudantes apresentem seus trabalhos, conheçam pesquisas de diferentes áreas, interajam com diferentes pesquisadores e entendam melhor como a ciência é construída de maneira colaborativa. 

Conheça os envolvidos na iniciativa

Além da UFF, as atividades contam com a participação de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). No total, são 35 bolsistas de Iniciação Científica Júnior (ICJ), 3 bolsistas de Iniciação Científica (IC), 1 bolsista de pós-doutorado (PDJ), 7 bolsistas de apoio técnico (AT-NS) e 1 bolsista de Apoio à Difusão do Conhecimento do CNPq (ADC-1C). As bolsistas do Ensino Médio são alunas do Colégio Estadual Pinto Lima e dos campi São Gonçalo e Maracanã do IFRJ.

A equipe completa de pesquisadores participantes é composta por: Bianca Machado (UFF), Fabio Barboza Passos (UFF), Giovanna Machado (CETENE), Felícia Silva Picanço (UFRJ), Marcela Cristina de Moraes (UFF), Sara Silveira Vieira Bertoli (UFF), Sonia Regina Alves Nogueira de Sá (UFF), Carolina Bastos Pereira Ligiero (CBPF), Ludmila de Paula Cabral Silva (UFF), Tiago Giannerini da Costa (IFRJ – São Gonçalo), Aline Farias Moreira da Silva (IFF – Itaboraí), Otávio Versiane Cabral (IFRJ – Rio de Janeiro), Thiago Custódio dos Santos (UFRJ), Maurício Alves de Melo Júnior (UFF) e Camilla Djenne Buarque Müller (PUC-Rio).

Por Isabela Bitencourt e João Pedro Chiabai

Conheça o Espaço de Cuidados e Apoio às Crianças da 78ª Reunião Anual da SBPC

Conheça o Espaço de Cuidados e Apoio às Crianças da 78ª Reunião Anual da SBPC

Vai participar da 78ª Reunião Anual da SBPC e precisa de um local seguro e acolhedor para sua criança durante as atividades do evento? O Espaço de Cuidados e Apoio às Crianças na SBPC foi criado para oferecer esse suporte às famílias.

De 27 a 31 de julho, crianças de 3 a 11 anos poderão ser acolhidas no espaço, que funcionará na unidade de Educação Infantil do Colégio Universitário Geraldo Reis (Coluni-UFF), ao lado do campus do Gragoatá, em Niterói. A iniciativa busca proporcionar tranquilidade para que mães, pais e responsáveis possam desempenhar suas atividades na programação oficial da SBPC.

Podem solicitar uma vaga pessoas que estejam inscritas na 78ª Reunião Anual da SBPC, atuem oficialmente na organização, programação ou realização do evento e sejam responsáveis legais por crianças na faixa etária atendida.

Serão disponibilizadas 40 vagas por turno, nos seguintes horários:

  • Manhã: das 9h40 às 12h;
  • Tarde: das 12h40 às 19h.

O Espaço de Cuidados e Apoio às Crianças na SBPC integra o projeto Cuidotecas – uma iniciativa desenvolvida pela UFF, por meio do Coluni, em parceria com a Secretaria Nacional de Cuidados e Família do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS).

O preenchimento do formulário corresponde a uma solicitação de vaga e está sujeito à disponibilidade e aos critérios de seleção definidos pela organização.

Clique aqui para conferir todos os detalhes e se inscrever!

Vozes da SBPC: Encontro promove discussão sobre trabalho de cuidado, produtivismo acadêmico e desafios enfrentados por mães na universidade

Vozes da SBPC: Encontro promove discussão sobre trabalho de cuidado, produtivismo acadêmico e desafios enfrentados por mães na universidade

Pesquisadora Bruna Pinto Martins Brito fala da maternidade como fator de diferenciação na trajetória de cientistas brasileiras

A maternidade no ambiente acadêmico será uma das temáticas abordadas na programação científica da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), sediada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), entre 26 de julho e 1º de agosto. O conceito ganha destaque no maior evento científico da América Latina com a mesa-redonda “Maternidade como marcador social da diferença na trajetória profissional das cientistas brasileiras”, coordenada pela professora e pesquisadora do Departamento de Psicologia da UFF em Campos dos Goytacazes, Bruna Martins Brito.

A mesa compõe as atividades propostas pela comissão de Gênero, Diversidade e Equidade e contará com a participação das pesquisadoras Fernanda Staniscuaski, Tatiane dos Santos Duarte, Alana Karoline Fontenelle Valente e Lilian Angélica da Silva Souza. O encontro irá discutir a maternidade enquanto processo de diferenciação na carreira de cientistas homens e mulheres por meio de questões como: sobrecarga mental em mulheres; invisibilidade do trabalho reprodutivo e de cuidado; patriarcado; e lógica produtivista na academia.

Pesquisadora da temática de gênero e saúde mental, Brito ingressou em 2020 no Grupo de Trabalho Mulheres na Ciência, que desde 2022 tornou-se a Comissão Permanente de Equidade de Gênero (CPEG) da UFF. A docente também coordena a ação extensionista “Mães na Rede: Atenção, Cuidado e Redes de Apoio a mães em sofrimento”, projeto que oferece rodas de conversa em espaços públicos na cidade de Campos dos Goytacazes (RJ). Nesta edição , a docente fala sobre a importância de a universidade e as demais instituições oferecerem condições para o ingresso e permanência das mães na produção científica.

Por que é importante compreender a maternidade como uma questão política e estrutural na universidade?

Bruna: Pensando que a universidade não está descolada do social, e que a maternidade extrapola a esfera particular e ocupa o espaço público, conseguimos compreender que ela reproduz tudo aquilo que está num cenário social mais amplo, marcado pelo produtivismo do sistema capitalista e pela invisibilidade do trabalho reprodutivo e de cuidado. Trabalho esse que não é remunerado. Dessa forma, pensar politicamente a maternidade dentro do ambiente acadêmico é, também, avançar em direção a uma mudança cultural, permitindo que a maternidade seja vista enquanto um trabalho, não pela ótica do produtivismo, mas como uma função que garante a manutenção da vida e que, inclusive, sustenta o trabalho produtivo.

De que maneira o sistema capitalista e patriarcal impacta na trajetória das mães pesquisadoras?

Bruna: Em um sistema sustentado pela exploração da força de trabalho aliado à socialização feminina que, até hoje, impõe a maternidade, a carreira das mulheres na ciência é diretamente influenciada pela lógica produtivista e pela invisibilização do trabalho de cuidado. Como esperar que mães cientistas, especialmente com filhos pequenos ou com deficiência, tenham as mesmas condições de produzir, com a excelência que se espera de uma pesquisadora, ao mesmo tempo que se dedicam ao trabalho materno? A sobrecarga mental enfrentada pelas mães, principais cuidadoras das crianças, é muito maior do que a de um pai. A conta não fecha. O que vemos, muitas vezes, são mulheres que trabalham como se não tivessem filhos, sem nem tirar licença pós-maternidade, abrindo mão desse direito, com medo de sofrerem alguma retaliação em uma tentativa desigual de competir com pesquisadores. Um homem não tem que recuperar nada após a paternidade, da mesma forma que ele não pesquisa mais que uma mulher, ele apenas tem mais condição de pesquisar.

Como a invisibilidade do trabalho de cuidado e do trabalho de reprodução afeta a saúde mental das mulheres, especialmente, das mães cientistas?

Bruna: A cultura patriarcal ainda associa ao sexo feminino uma “disposição natural” para o cuidado, enquanto a divisão social do trabalho faz com que as mulheres acumulem as responsabilidades domésticas e profissionais, intensificando seu esgotamento físico e emocional. Na pandemia, isso ficou muito evidente, e tiveram muitos casos de mulheres extremamente sobrecarregadas. Também precisamos pensar o quanto a saúde do seu filho também afeta a sua saúde mental. Em casos de doenças, é a mãe que desmarca os compromissos, sejam profissionais ou pessoais. E, pensando nas mães cientistas, a invisibilidade do trabalho de cuidado passa a comprometer sua própria saúde mental na medida em que as instituições não entendem que aquela mulher não está nas mesmas condições de mulheres sem filhos ou homens. Nesses casos, a solução é retirar sua carga horária de pesquisa e extensão, interrompendo seu viés de pesquisadora. Ou seja, para as mulheres, a tripla jornada é acompanhada pelo desgaste psíquico e comprometimento do seu trabalho.


Atividades do grupo “Mães na Rede” na Semana de Ciência e Tecnologia de Campos dos Goytacazes em 2023 (Jardim São Benedito/ Campos dos Goytacazes)

Qual é a sua percepção sobre os editais de fomento à pesquisa destinados a mães cientistas?

Bruna: Apesar da importância de editais específicos para garantir a permanência de pesquisadoras que são mães no ambiente acadêmico, é preciso que haja recortes que considerem o momento profissional que cada uma delas está, principalmente quando pensamos em crianças pequenas, que têm uma exigência maior de trabalho. Ainda faltam incentivos reais que deem conta da pluralidade do que é ser uma mãe pesquisadora. Mas
não dá para começar de cima. É preciso entender as próprias desigualdades entre as mães pesquisadoras. Na UFF, uma das conquistas da CPEG foi a atribuição de uma pontuação extra para as mães nos editais. Então, essa pode ser uma alternativa: incluir ponto extra para as mães com crianças pequenas, a fim de que elas consigam uma pontuação mais equiparável para concorrer às bolsas. Também considero importante implementar essas medidas nos editais de iniciação científica, como forma de incentivar quem está iniciando seu processo de formação.

Como os critérios atuais de avaliação acadêmica podem acabar aprofundando desigualdades entre homens e mulheres na ciência?

Bruna: Quando se iniciou a discussão da maternidade enquanto trabalho, o debate ficava muito nos termos sociológicos e pouco dentro da universidade, especialmente em como o tema afetava as mulheres dessas instituições. Atualmente, entendemos que há uma iniquidade de gênero. Principalmente quando pensamos na maternidade como marcador social da diferença, materializado pelo efeito tesoura de gênero. No caso das mulheres, é muito comum que elas passem por um período de estacionamento da carreira durante os primeiros anos dos filhos. Ao mesmo tempo, mesmo os homens pais de crianças muito pequenas continuam produzindo como se não tivessem filhos. Dados de 2022 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) mostraram que dos 20,9 mil bolsistas, 65% eram homens e 35% mulheres. Já no nível 1A, o mais alto, a discrepância de gênero é ainda maior, e 73% era representado por pessoas do sexo masculino, enquanto apenas 27% eram mulheres. Eu acho que os dados falam por si só. Por que será que tem poucas mulheres no nível A1? Os dados que revelam a desigualdade de gênero em bolsas de pesquisa não mostram a relação entre pesquisadores que exercem a maternidade e paternidade, fatores que considero essenciais para escancarar a desigualdade do trabalho de cuidado.

Bruna e a bolsista Aguitha Vasconcelos na apresentação do projeto no “Mães na Rede” no Congresso Fluminense de Iniciação Científica e Tecnológica (CONFICT) em 2024

Como driblar a lógica produtivista dentro da academia?

Bruna: Apesar de considerar a produção importante, acredito que é preciso problematizar a lógica produtivista adotada pelas universidades, muitas vezes alinhada às exigências do capital e da manutenção de status acadêmico. Também acho fundamental discutir como parte da produção de pesquisadores homens é sustentada pelo trabalho invisibilizado de mulheres, tanto no cuidado com os filhos quanto no suporte acadêmico realizado por bolsistas de iniciação científica e pós-graduandas. Além disso, acho que as instituições deveriam valorizar mais outras formas de circulação do conhecimento para além das publicações científicas, como as ações extensionistas, que ampliam o diálogo entre universidade e sociedade e dialogam com diferentes formas de saber. A produção científica é fundamental, mas ela não pode acontecer às custas do adoecimento de quem pesquisa.

Como você avalia a inserção dessas temáticas na programação da SBPC?

Bruna: Vejo com muita alegria a inclusão dessas discussões na programação da SBPC. Há alguns anos, seria impensável debater gênero e maternidade dentro de um evento científico desse porte. Considero que esse encontro será um passo importante para refletirmos sobre a realidade das pesquisadoras no Brasil, embora ainda seja insuficiente diante do que precisamos avançar. Espero que as pautas que serão discutidas resultem em mudanças concretas, como alterações nos editais, revisão da lógica produtivista, combate ao assédio nas universidades e no fortalecimento dos coletivos de mães. Também acredito que a ampliação do espaço para pesquisadoras mães fortalece e diversifica a produção científica. Vi essa mudança na prática desde que iniciei meu projeto de extensão sobre maternidade, em 2020. Em cinco anos, já orientamos mais de 20 trabalhos de conclusão de curso sobre o tema, mostrando o impacto direto dessa abertura.

Qual é a sua expectativa para a mesa-redonda?

Bruna: Espero que este espaço seja um local seguro para que as mulheres possam discutir e expressar, livremente, os desafios enfrentados pelas mães pesquisadoras, desde as discentes até as docentes, e que possamos transformar essa discussão em propostas concretas de mudanças estruturais nas universidades, como melhores condições de permanência e mais ações de apoio às mães na pesquisa. Além disso, desejo que o debate incentive a comunidade científica a tratar esse tema como uma questão coletiva, e não individual, e que essa discussão ganhe espaço dentro da SBPC como um tema central para a ciência brasileira, com mais respeito, visibilidade e compromisso com a redução das desigualdades de gênero.

Aberta ao público e com participação gratuita, a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência acontece no Campus Gragoatá da UFF, em São Domingos. A programação contará com conferências, mesas-redondas, minicursos, exposições, atividades culturais e palestras voltadas tanto para estudantes do ensino básico quanto para discentes e docentes da universidade. As informações sobre o evento podem ser acompanhadas no site oficial da SBPC e no perfil do instagram.


Bruna Pinto Martins Brito é professora associada do curso de Psicologia de Campos dos Goytacazes da UFF. Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2004), mestrado e doutorado em Psicologia pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em tratamento e prevenção psicológica, tratamento analítico, saúde mental e maternidade.


Por Vivian Abreu

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